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Beijos e abraços Quando eu era criança, costumava abraçar e beijar meu pai. Um hábito saudável, que demonstra carinho e intimidade. Você pode achar engraçado, mas naquele tempo não era comum. Meus amigos não tinham esse tipo de liberdade, e chamavam os próprios pais de “senhor”. Meu pai era uruguaio, filho de imigrante espanhol. Não sei se isso teve alguma influência, na sua maneira de se relacionar com os filhos. Hoje em dia, todos já sabem, é muito bom que pais e filhos possam se beijar sem pudor. Entre adultos, as coisas também mudaram. Já é normal encontrar, no Brasil, homens que se cumprimentam com beijos. Eu acho bom, mais carinhoso. O aperto de mão, com tapinha nas costas, ficou reservado apenas para apresentações mais formais. O beijo entre sexos opostos então, que no meu tempo de guri era raro, hoje é o padrão. Tô falando de beijo para cumprimentar, não tô falando de beijo na boca! Já encontrei lugares onde se dá quatro beijos. Acho um exagero! Fiz uma média aritmética, e decidi cumprimentar as pessoas sempre com dois beijos, mas às vezes fico pendurado no ar, fazendo biquinho. Ou vice-versa. Meu cunhado foi à Nigéria, onde sua empresa estava prestando um serviço para o governo local, e descobriu que os nigerianos também têm as suas peculiaridades. No dia da viagem de volta, um assessor foi acompanhá-lo até o aeroporto. Chegando ao balcão da companhia, o tumulto era muito grande. Sinalizou ao pessoal do atendimento que estava ali com um passageiro vip, e deu a mão para o meu cunhado. Ficaram assim por uma hora e meia, até que finalmente chamaram para o embarque. Só depois ele ficou sabendo, que é um hábito local. Sempre que dois homens ficam conversando, fazem isso de mãos dadas. O que pra nós é muito estranho, pra eles é um comportamento normal. Meu cunhado diz que as pessoas acabam se acostumando, mas minha irmã já reclamou. Não está gostando nada dessas viagens à África.
Eu chamava o meu pelo nome, como se fosse um irmão mais velho. Ele nos criou assim, acreditava que essa atitude controversa nos deixaria mais próximos. Deu certo. Nunca chamei ninguém de pai. Em compensação, nunca me faltou o que realmente interessa: a figura paterna, com toda a sua carga afetiva.
Tudo é uma questão de hábitos e costumes, que variam com a época e a cultura do lugar. Eu, que viajo o tempo todo, muitas vezes fico perdido, na hora de cumprimentar as pessoas. Há cidades no Brasil, em que se dá apenas um beijo. Outras, usam dois, um em cada face. Algumas dão três, “três pra casar”!
Cada povo com a sua mania. Os homens argentinos se beijam. Os russos se beijam na boca. Os japoneses nem se tocam, só mexem com a cabeça, como se estivessem dizendo “sim”. Mesmo quando querem dizer não.
Kledir Ramil
