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Certa vez, Kleiton e eu estávamos montando um show e, na abertura, resolvemos incluir um mantra indiano, em sânscrito. Como ninguém sabia a pronúncia correta do texto, Benjamim Santos, o diretor do espetáculo, resolveu procurar Antônio Houaiss, filólogo e intelectual, provavelmente uma das poucas pessoas que entendia de sânscrito no Brasil.

Ao ser perguntado como era a pronúncia exata daquelas palavras estranhas, Houaiss caiu na risada e saiu com uma pérola:

- Pode dizer de qualquer jeito, ninguém sabe falar sânscrito no Brasil.

Lembrei dessa história, pois estamos vivendo tempos em que a aparência é o mais importante. As pessoas se preocupam mais com a embalagem do que com o conteúdo. Ou seja, não importa o que você fez, mas o que os outros acham que você fez.

Não importa a coisa em si, mas o que as pessoas imaginam, o que pensam da coisa. A versão é mais importante do que o fato. Por isso, o marketing e a propaganda têm ocupado cada vez mais espaço no nosso dia-a-dia, especialmente nas campanhas eleitorais. Cria-se imagens que não necessariamente correspondem à realidade. O que interessa é vender o produto, vencer a eleição, faturar algum.

Tenho uma sobrinha que passou no vestibular de comunicação, cursou alguns meses e desistiu. Entrou em crise com a questão ética na publicidade, largou a faculdade e resolveu fazer psicologia. Brinquei com ela, dizendo que em algum momento vai ter que começar a abrir mão de tanta rigidez de princípios, senão não vai conseguir fazer nada na vida.

É triste. Fiquei brincando, mas o assunto é sério. Eu também, como qualquer pessoa de bom senso, vivo atormentado com isso, pois não abro mão de meus princípios morais. Aprendi a andar no fio da navalha, para poder ser produtivo em uma sociedade onde os valores são medidos pelo dinheiro.

O pensamento corrente é de que não importa se você está agindo errado, desde que ninguém saiba. Um tipo de postura que, misturada com uma sociedade de consumo desenfreada, cria uma bomba relógio. Que pode até tardar, mas com certeza vai explodir.

Cesar, o Imperador de Roma, certo dia repreendeu Cleópatra por seu comportamento indecoroso. Ao ouvir a explicação de que levava uma vida recatada e era absolutamente fiel a ele, respondeu com uma frase que talvez tenha sido a primeira aula de uma matéria que no futuro viria a se chamar marketing:

- Para a mulher de Cesar, não basta ser fiel. É preciso parecer fiel.

Kledir Ramil

Kledir Ramil