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Hoje é domingo, 19 de outubro, e passei o dia todo falando o mínimo possível. Estou num vilarejo sagrado chamado Navadwipm que fica no west bengal da Índia. Acordei às 3h40, arrumei minha cama, tomei banho de balde e canequinha, trancei o cabelo, peguei meu terço e saí para a reza da manhã, que começa às 4h30.

Olhei tudo com muita atenção, observando os gestos dos devotos nativos, dos ocidentais, os sons do amanhecer e, finalmente, olhei com muita atenção e esperança para as deidades no altar. Tudo estava tão vivo...

Em seguida, saimos para um parikrama (proscissão). Aqui em Navadwip, tem épocas do ano que os parikramas se intensificam e cada ashram sai em fila, tocando instrumentos de percurssão, cartalos, batendo palmas e fazendo sons com a língua. Cada ashram tem seus cânticos específicos e o vilarejo fica movimentado, com essa cantoria alegre de glorificação a Deus.

Aconteceu uma coisa engraçada: dei uma distraída e, quando tentei voltar a cantar as canções do nosso ashram, não reconheci a música e não identifiquei o que todos estavam cantando tão alegres. Então, vi uma senhora balançando os braços e chamando minha atenção, como um adulto com uma criança, e falando em bengali apontando outra direção. Resumindo: na distraidinha que dei, saí da fila do nosso ashram e entrei em outra turma. Estava acompanhando outro ashram.

Olhei em volta, e não conhecia ninguém. Então, a senhora, que só falava bengali, teve a paciência de me esperar entender o que estava acontecendo e apontou onde estava nossa turma. Ela me pegou pela mão e me localizou, rindo feliz por me ajudar... acompanhei o parikrama descalça.
 
Cantei a manhã inteira um  mantra (som de poder), que nos purifica de todas as aflições e frustrações, e deixa nosso coração feliz e inspirado.
 
Aqui no ashram, tem um mantra carro-chefe que, quanto mais a gente canta, mais a gente gosta e se apega. O contrário da maioria das músicas que, depois de ouvir 100 vezes, a gente passa para outra. Esse mantra, quanto mais a gente ouve, mais a gente gosta, e quanto mais a gente canta, mais quer cantar.
 
Hoje eu cantei mais de mil vezes esse mantra, e fui em todas as rezas, além de acompanhar o parikrama. Não estou pagando promessa nem me penitenciando por meus pecados. Faço isso porque me sinto muito bem fazendo, gosto da companhia tão doce dos devotos, sinto minha alma aliviada e em paz profunda. Amanhã vou fazer tudo de novo.
 
Quando terminamos a proscissão, eram 6h da manhã. Fui limpar o corredor do guest house e lavar minhas roupas. As 8h, fui tomar prasada (comida abençoada) e, em seguida, fui com meus amigos, minha afilhada Jayabati e o monge que administra o ashram visitar o local em que nasceu nosso GURU, que fica a uma hora de Navadwip, onde estamos. Lá, levantaram um templo menor, mas igual ao daqui, e acabaram de construir um guest house muito bonito, ao lado de um lago cheio de flores de lotus.

Levamos presentes e doces, oferecemos reverências, trocamos comprimentos gentis com os moradores do templo e voltamos com cachos de bananas e vegetais. Na volta, visitamos a plantação de arroz do nosso ashram. Fiquei surpresa de ver o tamanho da plantação e a competência do monge administrador.

Sempre que paramos o carro, quando as pessoas notam que tem um bebê ocidental, nos cercam e ficam maravilhadas. Jayabati é um sucesso!
 
Voltamos sentindo que vivemos uma aventura, porque entrar num carro e viajar por uma hora na Índia, é definitivamente uma aventura.

Ainda não me acostumei que, dentro do ashram, tem um local para internet. Estou aqui para mandar esse texto para vocês. O devoto que toma conta do local, é todo tatuado com mandalas e mantras indianos. É bonito, gentil e excêntrico; mais excêntrico do que o normal. Assim que entrei, acabou a eletricidade e vim para meu quarto terminar o texto.
 
Decidi dar uma descansadinha, antes do almoço, e dormi feito uma pedra. Nem quis almoçar e, quando consegui me agilizar, comecei a cantar o mantra de novo e andar em volta dos templos... e assim vai.

Isso limpa a gente do consumismo, da cegueira existencial  e da falta de fé no supremo. Tem gente que diz que é lavagem cerebral, morre de medo dessas coisas e prefere ficar num contato duvidoso com o lixo mental e desejos mundanos.

Eu tenho medo da insanidade humana e me identifico com essa festa divina.
 
Pretendo me transformar numa pessoa mais simples e humilde.

Desejo, de coração, que todos tenham a oportunidade de ter contato com a própria alma.

Paz !

Com afeto

Regina Shakty

Regina Shakty: Na Índia com meu Guru 8