Editorial às 15:25

Simone Biles e a saúde mental dos atletas: E agora, o que muda no esporte?

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Reprodução/Instagram

Os atletas olímpicos são pessoas que têm habilidades físicas superiores às das pessoas comuns. Que lutam constantemente contra os limites do corpo e da mente, para irem cada vez mais alto e mais longe. A dedicação é enorme, com anos de preparação e treinamentos intensos, colocados à prova em um único momento, por alguns minutos. 

A desistência de Simone Biles na competição final individual da ginástica artística dos Jogos Olímpicos de Tóquio levantou discussões sobre a saúde mental dos atletas. Aos 24 anos, a ginasta é o maior astro da modalidade e era uma das maiores apostas para trazer mais uma medalha olímpica para os Estados Unidos. Imagina só o peso de carregar toda essa expectativa nas costas, principalmente depois de um ano de preparação difícil graças à pandemia da Covid-19? 

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Pois é. Talvez Simone não tenha limites quando o assunto é criar saltos novos ou alcançar altas pontuações. Mas, assim como qualquer um de nós, ela é um ser humano. E a sua saída da final da ginástica destaca que até os melhores atletas do mundo sofrem – e muito – com as pressões, especialmente nas Olimpíadas.

“Tem sido muito estressante esses Jogos Olímpicos, eu acho, como um todo – não ter público. Existem muitas variáveis ​​diferentes nele. Foi uma longa semana. Foi um longo processo olímpico. Foi um longo ano. Então, apenas um monte de variáveis ​​diferentes. E acho que estamos um pouco estressados ​​demais” Simone Biles ao anunciar a desistência

Grande estrela de Tóquio, Biles não pareceu confortável com tantos holofotes desde o primeiro dia, no treino de pódio. Na fase de classificação, a ginasta teve erros significativos em todos os aparelhos e, mesmo assim, terminou na primeira colocação, mas com uma vantagem muito menor do que o esperado sobre todas as demais. Na final por equipes, foi mal no salto e optou por se retirar da competição, para preservar sua saúde mental e não prejudicar as companheiras, sendo substituída por uma ginasta reserva. Mais tarde, veio a notícia de que a atleta também estaria fora da final de individual geral.

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“Há uma idealização dos atletas por parte das pessoas, como se eles tivessem que ser heróis. Não há uma clareza, para muitas pessoas, que antes de tudo esse atleta é um ser humano. Eles precisam de acompanhamento psicológico -treinamento mental- pois estão sob forte pressão em muitos momentos. Além disso, também precisam se ver como seres humanos que acertam e erram, e não podem permitir que a empolgação ou a vaia dos torcedores definam a visão que eles têm de sí mesmo, pois na quarta feira eles podem ser incríveis na visão da torcida, mas em breve eles podem falhar e serem vistos como canalhas”, avaliou Daniel Mello, psicólogo esportivo, em entrevista ao UOL.

Craig Cypher, também psicólogo esportivo, afirmou em entrevista ao 13 WHAM que os atletas precisam ter a mentalidade certa, caso contrário, o risco a sua segurança fica maior, principalmente ao realizar habilidades que poucas pessoas no mundo podem fazer.

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“É importante entender que o estresse afeta a todos nós, e que podemos ter algumas conversas honestas sobre que tipo de expectativas e pressões nós colocamos sobre os atletas de elite. São apenas humanos, como todos nós. Eles precisam do mesmo nível de apoio que todos nós precisamos para sermos capazes de administrar o estresse e as dificuldades que enfrentamos”, disse.

CASOS COMO O DE SIMONE BILES

Essa não é a primeira vez que um atleta envolvido com as Olimpíadas tem a sua trajetória afetada pela busca do cuidado da saúde mental. Além de Simone, outros esportistas também trouxeram o assunto à tona, desistindo de torneios e competições para cuidarem deles mesmos.

A tenista japonesa Naomi Osaka abriu o jogo sobre a sua saúde mental no esporte após desistir de competir no torneio de Roland Garros e Wimbledon — dois campeonatos Grand Slam, ou seja, um dos principais no calendário do tênis. A atleta revelou que estava sofrendo com “enormes ondas de ansiedade” e “longos surtos de depressão” e falou da sua ansiedade social, que a faz usar fones de ouvido entre as competições. Além disso, Osaka também afirmou que não se sente confortável nas longas coletivas de imprensa depois dos jogos.

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Na Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Tóquio, a tenista acendeu a pira olímpica — momento simbólico considerado o ápice do evento. Eliminada precocemente, Osaka revelou que se sentiu pressionada por participar em Olimpíadas. “Foi um pouco demais para mim”, disse.

Tom Dumoulin, um dos melhores ciclistas do mundo, também precisou de um tempo afastado para cuidar dele mesmo. O holandês deixou a concentração onde treinava em janeiro deste ano para “esfriar a cabeça”, chegando até mesmo a colocar em cheque sua continuidade no esporte. O ciclista afirmou à imprensa que sentia ter esquecido de cuidar de si ao longo do ano anterior. 

“Quem sabe aonde isso vai me levar? De qualquer forma vou conversar muito com as pessoas, pensar, passear com meu cão e descobrir o que eu quero como pessoa, na bicicleta, e o que quero fazer da minha vida”, explicou, alegando que a pressão pública e dos meios de comunicação social são “mais difíceis de gerir” do que esperava.

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O período sabático não durou cinco meses, e, aparentemente, fez bem. Dumoulin levou a medalha de prata na prova contrarrelógio do ciclismo estrada masculino e comemorou muito a conquista.

“Estou feliz em voltar a ser um ciclista”, disse Dumoulin, após subir ao pódio.

Liz Cambage foi ainda mais extrema. A jogadora de basquete, que representa a Austrália, desistiu de ir para Tóquio faltando apenas um dia para a abertura. A atleta citou crises de ansiedade antes de entrar em uma espécie de “bolha”, uma restrição de contatos quase absoluta entre competidores para evitar a transmissão da Covid-19, e decidiu colocar a sua saúde mental em primeiro lugar.

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“Depender da minha medicação diária para controlar minha ansiedade não é o cenário onde eu gostaria de estar agora. Especialmente em uma competição no maior evento esportivo do mundo”, afirmou, em postagem nas redes sociais.

“Eu me conheço, e eu sei que não posso ser a Liz que todos merecem ver competindo pelo time australiano. Ao menos não agora. Preciso cuidar de mim mental e fisicamente”, completou.

Sha’Carri Richardson foi desconvocada do time dos EUA no atletismo por uso de maconha. A corredora, no entanto, afirmou que fazia uso do entorpecente para se acalmar em um momento difícil — a morte da mãe biológica. Richardson vive no Oregon, estado onde o uso da maconha é permitido.

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No entanto, em junho, antes da desclassificação, a atleta já falava sobre o difícil estado de sua saúde mental.

“Vocês me veem nesta pista e vocês veem a cara de paisagem que eu faço. Mas ninguém além da minha família e de meu técnico sabe o que eu passo dia após dia”, desabafou.

MUDANÇA NO MUNDO DOS ESPORTES

Mesmo que a saúde mental dos atletas seja um tema abordado por especialistas há tempos, o assunto nunca tomou uma proporção tão grande como agora. A decisão de Biles foi um alerta: se isso acontece com um dos grandes nomes da modalidade, de um dos países com mais recursos para o esporte, com certeza outros atletas também passam por esse tipo de situação. As declarações de Simone, assim como as de outros esportistas, mudam a percepção de que os atletas são máquinas que sempre têm que vencer.

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“As declarações de Biles romperam o tabu sobre a questão mental de atletas altamente competitivos. Ela quebrou certos paradigmas e será muito difícil botar esse assunto de novo debaixo do tapete”, disse Sergio Díaz, médico fundador do The Mind Institute, à BBC Mundo. “Isso vai mudar não só a forma de gestão mental nesta área, mas também nas sociedades em geral, porque os atletas tendem a ser um modelo seguido pelos mais jovens”, completou.

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Rebeca Andrade, ginasta que conquistou a medalha de prata para o Brasil na final individual geral, fez elogios à maior campeã mundial da história e falou da decisão de Simone em ficar fora da competição para cuidar de sua saúde mental.

“As pessoas têm que entender que atletas não são robôs, são humanos. A decisão que ela tomou foi a coisa mais sábia que ela fez por ela. Não se brinca com a cabeça. Eu sempre admirei na Biles o psicológico dela, todos sabem que ela é a melhor do mundo. A pressão em cima dela é constante, é muito difícil. Ela tem que entrar no ginásio para se divertir. Ver ela hoje (na arquibancada), eu fiquei triste, mas ao mesmo tempo orgulhosa dela por ter tido essa atitude, pensado nela antes de qualquer coisa. Ela vai voltar e vai arrasar com todo mundo”, finalizou.