Entrevista às 07:00

‘80% do que as pessoas falam é fofoca’, diz Paulo Betti sobre sucesso de Téo Pereira

Paulo Betti em Imperio

Globo/Estevam Avellar

A carreira de Paulo Betti é marcada por grandes personagens na TV, no cinema e no teatro. Atualmente na reprise de “Império”, faixa das 21h na Globo, como o temido Téo Pereira, jornalista que traz à tona os segredos de seus desafetos, o ator fala sobre o sucesso do personagem e como ele é o reflexo do comportamento da sociedade: a “paixão” pela fofoca. Ao OFuxico ele afirma: “Quase 80% do que as pessoas fazem ou dizem é fofoca. E quanto à maldade, hoje, as fakenews se disseminaram para todos, , temos o “gabinete do ódio”.

Na entrevista, o artista também se recorda de um trabalho, Acorda, Raimundo, Acorda, que fez para alertar a sociedade sobre a violência doméstica há 30 anos que está bem atual, infelizmente. Defensor de causas sociais, Betti usa suas redes sociais para defender direitos básicos da população como acesso aos SUS e em especial à vacina contra a Covid-19, que já matou quase 600 mil brasileiros de acordo com dados do Consórcio de Imprensa.  

Confira!

OFuxico: Império é um marco na sua carreira. O mundo ganhou muito mais personalidades como o “Téo Pereira”?Paulo Betti: A quantidade de personagens como o Téo Pereira continua igual, agora o que diz respeito à fofoca sempre foi algo muito presente na vida das pessoas. De acordo com o livro “Tratado geral sobre a fofoca”, editado por José Ângelo Gaiarsa, quase 80% do que as pessoas fazem ou dizem é fofoca. E quanto à maldade, hoje, as fakenews se disseminaram para todos. Ela [a pessoa] sabe que aquilo é mentira, mas ela passa pra frente. Hoje, por exemplo, temos o “gabinete do ódio” [grupo apontado pela CPI da Covid-19 como divulgadores de notícias falsas].  

OFuxico: Como foi o seu preparo para o personagem?
Paulo Betti: Meu personagem foi criado com uma ajuda “externa” da Helena Gastal, figurinista que me apresentou aquele corte de cabelo, roupas e óculos. No texto do próprio autor Aguinaldo Silva tinha indicações de como pronunciar “Queeeeeerida” com diversos eeeeeee. Me baseei no personagem do meu grande e saudoso amigo Sérgio Mamberti (1939-2021), Veludo,  no filme “Bandido da Luz Vermelha”.

Fiz a famosa bicha louca, que hoje é vista como politicamente incorreta, mas que é um personagem cheio de trejeitos.  Do resto eu descobri com a bicha louca que existe dentro de mim mesmo. Quase todos os homens têm uma maneira de fazer a bicha louca. Há muito nisso muito preconceito.

Tive medo de que isso fosse negativo, mas logo depois recebi uma ligação de um sobrinho que mora no interior de São Paulo, ele é gay e tem quase 60 anos, dizendo que ele era muito popular, que eu estava fazendo muito sucesso. Eu adoro fazer as pessoas rirem.  Quando alguém grita “Curuzes” é uma provocação, uma forma de dizerem que estão gostando e isso me alegra muito.

OFuxico: Como analisa esse campo do jornalismo voltado pra fofoca? 
Paulo Betti: Todo o jornalismo é uma espécie de fofoca. Nada é exatamente preciso. Sempre tem uma versão, uma maldade, um desejo, uma ideologia. É desagradável quando as coisas são distorcidas com maldade, tem muita gente que atua nessa área, mas fazer o quê?

OFuxico: Todo mundo tem interesse em saber da vida das celebridades? Contextualize.
Paulo Betti: Quando comecei a gravar novelas na Globo, os jornalistas ficavam nos corredores, eu sempre tive uma boa convivência com a imprensa, agora esse destaque para a vida pessoal, esse desejo pelo lado obscuro dos artistas eu não gosto, mas temos que conviver, está entranhado nas relações de amor e ódio…

OFuxico: Por que é tão importante os artistas se engajarem em causas sociais? Como defender a vacina, o SUS, direitos…Sente que seu trabalho é uma ferramenta para dar voz à sociedade?
Paulo Betti: Vem da minha formação essa participação em causas sociais. Quando eu comecei a fazer teatro vivíamos numa ditadura, era importante tomar posições, não tenho uma filiação com a intenção de ser candidato, mas eu sempre gostei de debater política. Hoje, nesse momento, é importante combater às fakenews, defender a democracia, a vacina… Não consigo ficar inerte. A neutralidade é quase um crime, é como estar conivente com aquilo. Respeito quem não se posiciona, cada um com sua consciência.

OFuxico: Nos 90 você protagonizou ao lado da Eliane Giardini “Acorda Raimundo, Acorda”. Hoje o curta poderia ser visto como algo ultrapassado, 30 anos depois. Eu vi na escola, por volta de 2000. Mas, infelizmente, os dramas de milhões de mulheres ali retratados ainda são grandes, principalmente, em relação à violência e à desigualdade.  Como a obra chegou até você? Qual foi a reação do público à época? E se fosse hoje como seria a história? Ele é atual? 
Paulo Betti: O projeto chegou até mim pelo Alfredo Alves e o Professor Betinho, sociólogo e ativista pelos direitos humanos. O roteiro é lindo, a mensagem era falar sobre a dupla jornada das mulheres, das injustiças e das condições de vida das mulheres. A história é atualíssima, as mulheres continuam ganhando menos que os homens, as mulheres são mortas pelos seus maridos. Dentro das circunstâncias atuais, o exemplo que vem do comandante do País no momento levaria o Raimundo a matar a mulher caso ela pedisse o divórcio ou num acesso de ciúmes.   

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