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06/06/2020 | 10h30m - Publicado por: OFuxico | Foto: Wallace Barbosa/AGNews

Aline Wirley e Igor Rickli revelam racismo que filho sofreu

Casal ainda contou que avó negra do menino foi confundida com uma babá

Aline Wirley e Igor Rickli revelam racismo que filho sofreu - Wallace Barbosa/AGNews

Diante da onda de protestos contra o racismo nos EUA e em todo o mundo, o casal Aline Wirley e Igor Rickli se pronunciou sobre o episódio racista que o filho Antonio, de 5 anos, sofreu. Igor é branco e Aline, negra.

Ambos resolveram contar à repórter Carol Marques, do jornal carioca Extra, o que aconteceu. E aproveitaram para revelar uma carta que escreveram juntos para o filho ler no futuro.

Segundo o casal, o episódio racista aconteceu em um restaurante badalado da zona sul carioca. O casal estava em sua mesa, quando o pequeno viu um cachorrinho e foi até o bicho, pertencente a outra cliente.

No exato momento em que a criança se aproximou, a mulher recolheu seus pertences de forma instantânea.

“Quando ele se aproximou da mesa desta senhora, louco para brincar com o cachorrinho, imediatamente ela recolheu as coisas dela, uma bolsa e um celular, com medo do meu filho. Aquilo me deu um clique. O meu filho vai passar por isso muitas vezes ainda na vida. E isso é assustador”, falou o Rickli.

O assassinato covarde do homem negro George Floyd nos EUA pelo policial branco Derek Chauvin fez o casal refletir ainda mais sobre o racismo que há no mundo e, sobretudo, aqui no Brasil.

“Conversamos muito em casa. Não deveríamos estar mais nas ruas pedindo o fim da desigualdade e o respeito. O racismo já não deveria ser uma pauta. Mas sabemos que será ainda uma luta longa e árdua. E que nosso filho terá que ser forte para entender tudo isso”, pontuou Aline.

O casal, que está unido há uma década, ainda lembra que o relacionamento inter-racial que vivem foi tratado com preconceito por muitas pessoas.

“Quando comecei a namorá-la, muitas pessoas vinham nas redes sociais me questionar. ‘Nossa, você podia ter qualquer mulher. Por que ela?’”, recorda o ator.

A atriz também sofreu muito preconceito, e passou a não ler comentários racistas nas redes sociais. Ela ganhou mais força quando se tornou mãe.

“Eu também me desconstruí. Nasci e cresci do lado da minoria e achava que ok, este é meu lugar. Até doer profundamente, até imaginar que meu filho não poderia estar em outro lugar se eu pensasse assim. Sou eu que preciso empoderá-lo, dar o caminho para que ele um dia não precise justificar a sua raça e sua cor. Até porque ele é filho de um branco com uma preta. Tem estas duas raízes e vai ter que transitar entre elas”, finalizou.

Igor ainda lembrou como amadureceu e revelou que registrou o menino como ‘branco’ no cartório e que não deu o sobrenome da mulher ao filho.

“Em toda a minha ignorância e despreparo na época, registrei meu filho como branco. Com o nome de Antônio Wirley Christoforo. Eu suprimi o Silva da Aline, porque eu achava que era muito comum, mais um Silva. Olha quanta coisa errada! Isso é algo que vou mudar e ele terá o Silva. Quanto à cor, não deveria sequer existir algo do tipo numa certidão. Olha quanto tempo eu levei para entender esse racismo estrutural que a gente tem enraizado. Algo ancestral. Que nos foi ensinado de.forma errada. No fundo, eu quis proteger o meu filho”, contou.

Avó negra confundida com babá

Aline lembra que pelo filho ter nascido com a pele clara, ela sofreu. “Ele nasceu muito branco. Eu nem sabia o que dizer. Uma vez, saímos com minha mãe, que é bem preta, e uma amiga bem branca. Enquanto saí de perto, foram perguntar à minha mãe se ela era a babá e minha amiga a mãe. Pode parecer pequeno. Mas isso machuca e magoa. Então, é importante que a gente se manifeste e fale o que sentimos. Precisamos falar o que está entalado”, fala.

Os pais ainda afirmaram que pretendem no futuro colocar o filho na escola pública, para que ele possa enxergar a realidade de seu país. Veja, a seguir, a carta que os atores fizeram para o filho ler no futuro:

“Carta para Antônio

Filho, esperamos que no futuro quando vc ler isso, vc seja um homem livre.

Estamos em 2020, e nesse momento enquanto você dorme um sono tranquilo, estamos te olhando e pensando no seu futuro, e no futuro de tantas outras crianças que acreditamos serem a nossa esperança. Mas pra isso, você precisará de muita coragem e entendimento sobre o que se passa agora. O mundo está um caos, no meio de uma pandemia que se alastrou pelo planeta, fazendo a humanidade rever todos os seus valores.

Dentro dessa estrutura caótica, existe uma que vai direto ao que você é. Você é fruto do AMOR. Porém, é filho de uma mulher negra e um homem branco, o que faz de você um ser que integra ambas as raças . Isso seria lindo se não vivêssemos em um mundo onde o RACISMO existe.

O racismo é algo cruel, que atinge o povo Negro há séculos, e que continua matando e massacrando esse povo. Os negros são alvo de uma sociedade que quer apagar a sua história, sendo eles inferiorizando, desumanizando, fazendo com que acreditem que suas vidas não são importantes. Mas, exatamente nesse momento, milhões de negros estão tomando as ruas pelo mundo afora, gritando por seus direitos, por igualdade e por justiça, por tantos que já morreram somente por serem negros. Eles estão exaustos de serem subjugados, maltratados e de viverem à margem da sociedade.

Filho, você é Negro. Em algum momento da sua vida, provavelmente terá seu cabelos afro, que tanto ama, ridicularizado e você sofrerá por isso. No entanto, por ser filho de um homem branco sofrerá bem menos que um irmão seu que seja retinto. Mas ainda assim seu coração sentirá, porque essas dores estão interligadas.

Por isso, é preciso que esteja preparado, potente e forte. Exatamente por isso estamos aqui pensando agora em como podemos te nutrir, pra que você esteja consciente da sua luta. A gente espera, do fundo do coração, que o SEU hoje seja melhor que o nosso. Que você não esteja sofrendo NENHUM tipo de preconceito. Que seu black, que é a sua coroa, continue linda, como símbolo de orgulho, e que nenhum irmão negro seu seja vítima de violência outra vez.

 

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