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29/10/2020 | 08h00m - Publicado por: Ará Rocha | Foto: Vinicius Costa

Bibi Perigosa da vida real: ‘Fiquei internada em um hospício’

Fabiana Escobar deu uma entrevista exclusiva a OFuxico e contou tudo sobre as mudanças e trabalhos sociais que faz atualmente

Bibi Perigosa da vida real: ‘Fiquei internada em um hospício’ - Vinicius Costa

Está no ar A Força do Querer, trama escrita por Glória Perez e que foi ao ar originalmente em 2017, agora reprisada na faixa das 21h, na Globo, no lugar de Amor de Mãe, que paralisou suas gravações por conta da pandemia do novo coronavírus.

Na novela, Bibi Perigosa é interpretada por Juliana Paes e, na vida real, OFuxico entrevistou Fabiana Escobar, a verdadeira Bibi Perigosa, que foi chamada também de Baronesa do Pó. Fabiana ficou bastante conhecida por seu casamento com Saulo de Sá da Silva, o Barão do Pó, que comandou o tráfico de drogas na região da Rocinha, no Rio de Janeiro. Ele está preso desde 2008.

Bibi Perigosa lança Programa de entrevistas no YouTube e assina com o SBT Interior

Com ele, Bibi ficou casada por 14 anos e tem dois filhos. Largando aquela vida, ela se colocou à disposição da Justiça para prestar informações e recebeu muitos ataques da opinião pública. Esse foi um dos motivos que a fez iniciar o blog Bibi Perigosa, em 2011, onde compartilhou tudo o que viveu na época do tráfico.

Numa conversa cheia de simpatia, Bibi contou à nossa reportagem que ainda segue o processo em relação à reprise da novela, falou sobre os novos projetos e trabalhos em Rociwood, núcleo de filmes rodados na favela da Rocinha, no Rio de Janeiro, e disse nunca estar sozinha, quando o quesito é relacionamento. Confira!

OFuxico - Você seria professora primária. Chegou a exercer essa profissão ou nunca seguiu?

Fabiana Escobar - Sim, fiz curso Normal (também conhecido como Magistério). Mas fiquei um tempo fora da escola, na adolescência. Quando tive meu primeiro filho, fiz o curso Normal. Fiz bastante estágio e quando conclui o Ensino Médio, fui direto para a faculdade, fazer Serviço Social e me encaixei no estágio de Serviço Social e fui embora.

OF – No meio do Serviço Social descobriu suas facetas de escritora, criadora de blog?

FE - Essa parte de escrever e criatividade na verdade sempre tive, porque desde criança roteirizava as brincadeiras com minhas bonecas. Sempre tive essa coisa de criar e escrever. No Ensino Médio escrevi uma novela e guardei. Depois de muito tempo, achei o disquete e fui numa lan house, porque quando fui ver, nem existia mais computador que lia disquete. Estava procurando fotos das crianças pequenas na verdade, mas aí achei o Linha Cruzada e publiquei como livro. E o Serviço Social trabalha muito com escrita, fazer relatórios, enfim. Acho que é coisa de berço.

OF – E na internet?

FE – Sempre fui muito ligada, antes era bate papo, depois o Orkut. Tudo que tem na internet, blogs, sites de relacionamento, tudo eu tenho, gosto disso. Sou do tipo: se ninguém te escutar, escreva. Sempre coloquei faixa em muro, sempre fui muito de escrever.

OF – De onde surgiu o apelido Bibi Perigosa?

FE – Bibi já me chamam desde criança, meus primos, tios. Perigosa já foi num período meio conturbado, porque eu tinha que negociar muito com homem e eu tinha que falar na altura deles, negociar sempre meio que de “homem pra homem”. Então eu batia de frente. E aí diziam “aí, tu é perigosa, hein?”. Aí esse apelido pegou e ficou.

OF – Nessa fase em que você fazia suas negociações, como foi, tinha medo de chegar em casa, ser atacada, ou foi ameaçada de morte?

FE – Não tinha medo em relação a eles não. Eu tinha em relação à polícia mesmo. Deles eu não tinha.

Fabiana Escobar com sua camiseta de diretora da Rociwood

OF – E o que imaginava que podia acontecer com a polícia?

FE – Eu tinha que encher o pulmão de ar e ia, não tinha tempo, tudo acontecia muito rápido, tanto pra dar certo ou errado Não tinha tempo de ficar com medo. Então, da polícia era medo de ser identificada, de ser presa.

OF – O que te levou pra esse caminho?

FE – O amor que eu tinha por ele e o sentimento de proteção, de proteger ele de tudo e de todos. Isso demandava eu reagir de alguma forma.

OF – Vocês se separaram e você reconstruiu sua vida?

FE - Me divorciei em 2010 (de Saulo de Sá da Silva, o Barão do Pó) e segui a vida. Demorei pra reconstruir essa parte afetiva. Até arrumei um namorado pra afrontar mesmo, pois eu estava em guerra. Demorei porque os homens tinham medo de mim, medo dele, medo de tudo. Me desdobrei pra mostrar que ele não ia pegar ninguém, que eu não mataria ninguém. Até tirar isso da cabeça dos homens demorou. Mas me casei de novo e me separei em 2016.

OF – Hoje está sozinha?

FE – Hoje estou solteira. Sozinha jamais! (risos).

OF - Com a reprise da novela A Força do Querer, houve mesmo um processo para que ela não fosse ao ar?

FE – O processo está rolando há 2 anos. Por causa de uma cláusula contratual. Só que a audiência seria em abril, no meio da pandemia e foi adiada. Essa questão da reprise da novela foi uma petição no mesmo processo pra dar um choque na justiça. Está há dois anos na justiça, nada definido e aí a novela é reprisada¿ a novela é a raiz do processo, o núcleo e aí se já está na justiça, ao meu ver, não poderia gerar lucro pra ninguém, porque nada está decidido. O processo está correndo e está para a justiça decidir. É uma cláusula feita por eles (emissora), eu li, assinei e não estão sendo corretos. Eu cumpri minha parte. Nada contra a novela, porém isso é um negócio, não um relacionamento afetivo. Até porque todo mundo ganhou bastante dinheiro com isso, então não vem com isso de sentimento de “coitado dos atores”, são negócios. Mas estou assistindo, de boa. Tudo de boa, mas o futuro tá vindo aí...

OF – E nessa reprise, você recebe pela sua história ou foi acordado que não haveria isso?

FE – Até agora ninguém me disse nada, mas também não estou desesperada com isso.  Quero saber da parte do processo, que é a venda pra fora do Brasil. Esse sim. Aqui no Brasil é merreca, lá é dinheiro de verdade. Aqui podem reprisar até a hora que o desembargador mandar tirar do ar. Aí quero ver.

OF – Seu canal de entrevistas no YouTube: como idealizou esse canal, como foi a montagem?

FE – Já existe a tempos, eu tinha um quadro de entrevistas No Motel com Bibi Perigosa. Queria algo bem à vontade. Dei preferência para me dedicar para os filmes e agora retornei. Agora entrevistas fora do motel, só a Bibi entrevistando mesmo e está bem legal.  

OF - E contrato com o SBT, como rolou?

FE – Recebi convite pra participar desse talent show em São José do Rio Preto e gravo uma vez por mês lá, os quatro programas. Só passa Oeste e Noroeste de São Paulo, mas tem na internet. Alcança milhões de pessoas, muito legal porque sempre vou como entrevistada em programas de TV e agora vou como júri. Outra parte que a minha vida profissional está muito legal. Apresentado pela Priscila Nunes, Eleonora Chaves, equipe maravilhosa.

Fabiana Escobar com claquete, hoje jurada do SBT São José do Rio Preto

OF – Tem mais projetos vindo por aí?

FE – Estou dedicada ao Rociwood, grupo de cinema que idealizei, faço direção e roteiro. A produção é toda na Rocinha e estamos produzindo um filme de terror. Paramos por causa da pandemia, guerra no morro e a gente grava na mata da Rocinha. Me dedicando muito, o projeto envolve mais de 30 pessoas. Dedicando 28 horas por dia pra concluir. Comecei escrever o Perigosa 2, mas eu deixei um pouco, porque o mercado literário é muito covarde, não é uma coisa de retorno, pra seu livro ter visibilidade você tem que se esmerilhar, se desdobrar. Não tem retorno de livraria. E o escritor ganha só 10%. Não é pelo ganho, se eu quisesse ganhar muito dinheiro estaria vendendo outras coisas. Às vezes as pessoas não têm acesso ao livro porque as vezes pode ser muito caro ou não tem esforço de divulgação da sua obra e então me decepcionei com o mercado literário. Comecei escrever o 2 que está muito mais chocante que o 1, porque aconteceram coisas terríveis depois do livro, muita coisa ninguém nem sabe o que aconteceu, até porque a mídia estava em cima de mim e eu tive que engolir a seco o que aconteceu. Então me dedicando ao filme Vale dos Espíritos, com Rociwuus, pelo peso social. Porque a gente representa a Rocinha, os moradores que lutam pra sobreviver, e eu passo junto com eles.  A gente se torna uma referência boa pra eles. Uma honra. E é prioridade mostrar não só dentro da Rocinha, que é nosso alvo, mas e as pessoas terem esperança, de saber que não se vence, não se tem visibilidade, não se ganha dinheiro através de coisas ilícitas. E já temos outros roteiros pra produzir.

OF – Pode adiantar pra gente uma dessas coisas que viveu?

FE – Uma que foi marcante pra mim e até já me veio como inspiração pra um dos roteiros, foi o fato de eu ter, um ano e meio antes da novela ir ao ar, ficado internada 20 dias num hospício.  E foi uma das experiencias mais incríveis em todos os sentidos pra mim, de tudo que já vivi. A Glória Perez estava escrevendo a novela e escreveu pra minha mãe, sabendo que havia alguma alteração ali. Ela disse pra minha mãe “fala pra Bibi não morrer agora, pelo amor de Deus.”

OF - Por que ficou no hospício?

FE - Porque entrei em depressão e tentei me matar. Mas meu pedido pra morrer foi negado. Nesse período tinha escrito uma peça de teatro e ela estava e cartaz, porque fiz projeto na Rocinha, o Teatro no Cardápio. Eu adaptei uma peça, a Se Beber Não Tire Selfie, num ambiente do restaurante que tem lá dentro da Rocinha que tem mais uso lá. Pensei vamos por uma pitada de cultura aqui nisso, e eu adaptei uma peça que acontecia no meio do público, que interagia. Na última apresentação deu esse terremoto e eu fui internada. O pessoal ficou em pânico total, porque eu dirigia a peça. Foram na clínica, me viram totalmente dopada, tomando 15 remédios, não sabia nem onde eu estava. Eu só lembro de falar “vocês sabem tudo, apresenta, apresenta”.

OF – Você segue com trabalhos sociais então?

FE - Como não temos recursos financeiros, sempre participo de tudo que envolve a parte social, o que posso colaborar em outros projetos e campanhas sempre envolvida, parte literária, música. Cultura é um alimento: a pessoa precisa de comida, precisa de trabalho, precisa de cultura. No sentido de melhorar, de emancipar a comunidade. Ali tem muita coisa pra doar pra sociedade, mas não temos muitos recursos financeiros. Então, o que a gente se apega com todas as forças pra colaborar é essa parte de ser uma referência boa dentro da comunidade, sem nenhuma barreira. Estamos próximos à todas mazelas que podem existir, sendo, com toda dificuldade, toda luta é referência boa de conquista e é bom pra crianças que  querem participar, colocamos camisa da produção, damos rádio de comunicação, almoçam com a gente. E para atores entrando no mercado isso é importante. Queremos mostrar uma referência boa.

 

Crianças da Comunidade da Rocinha

 

OF - Superação de tudo que viveu no passado?

FE - Enfatizemos bem o agora. Porque só falar do que já passou, as pessoas veem a superação mas pra mostrar essa superação, que é possível, tem que falar de joje. Por isso falo incansavelmente, venho há anos falando a mesma coisa, pra dar um passo a frente da historia e não ficar presa só lá atrás, senão as pessoas não chegam no hoje e na projeção do futuro que a gente tá lindamente construindo.

OF- Da época de negociações, o que ganhou em dinheiro construiu muita coisa? E as coisas que construiu, seguem até hoje? O que aquele trabalho trouxe pra sua vida até hoje?

FE - A parte financeira de quem é envolvido com coisas ilícitas não tem futuro não. Não resta nada no final. Sem sombra de dúvidas não existe . É ganhar aqui e perder ali. Não só dinheiro, mas perde liberdade, perde família, perde tudo. Não existe ganho que fique. Não restou nada. Só uma mancha que ou você vai conseguir conviver com ela ou tentar, de alguma forma, mudar isso. Mas não muda, ela fica. Igual fazer uma limonada com um limão.

OF – Os novos projetos?

FE – O filme que será lançado em dezembro, que é muito importante pra mim, pro pessoal da Rocinha, para os atores todos dedicados. Isso é um ponto positivo, pra nós, pra Rocinha, pra favela. A gente tem muita capacidade pra ser aproveitar. Fazendo das tripas coração pra isso dar certo. E meu canal, minha vida, tô aí pra fazer o bem. Quem quiser somar estou distribuindo pra quem quiser.

OF – Hoje, a Fabiana Escobar, quando a tiram do sério, ela é do tipo tiro, porrada e bomba?

FE – (risos) Pensando aqui que o nome que ganhei foi por argumentos, então continuo sendo perigosa, se me deixar falar, deixar desenrolar, eu sou um perigo. E óbvio que hoje em dia tenho mais cautela na hora do caos. Mas meu temperamento é mais ou menos o mesmo. Sou super calma, super de boa, super light, mas se atravessar uma linha da minha paciência, é dramão!

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