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12/07/2020 | 10h10m - Publicado por: Ará Rocha | Foto: Divulgação/Rodrigo Lopes

Malhação 25 anos: 'Choro, riso, nervos à flor da pele', diz criador

Emanuel Jacobina conta a OFuxico qual das temporadas deu muito pano pra manga

Malhação 25 anos: 'Choro, riso, nervos à flor da pele', diz criador - Divulgação/Rodrigo Lopes

O ano de 2020, apesar de ter pandemia e isolamento social por conta do novo coronavírus, também traz muitas comemorações para Emanuel Jacobina. Ele celebra 30 anos de carreira e uma das suas maiores criações, em parceria com Andrea Maltarolli, completa 25 anos no ar: Malhação!

Além de criador do formato, Emanuel é o autor titular de seis temporadas da série, inclusive a mais recente, batizada de Malhação - Toda Forma de Amar, que teve a segunda maior audiência dos últimos dez anos.

Emanuel Jacobina fez parte dos grupos de humor Casseta & Planeta e Obrigado Esparro, foi roteirista de importantes programas humorísticos e séries da Globo, como Dóris para Maiores, Casseta & Planeta Urgente!, Os Trapalhões, Caça Talentos, Sai de Baixo e A Grande Família. Carioca, foi colaborador nas novelas Kubanacan e Beleza Pura e estreou como autor/criador de novelas em 2002 com Coração de Estudante.

OFuxico fez uma entrevista exclusiva com Emanuel Jacobina, um dos criadores da novela teen que enche a tela de sucesso, desde 1995. Confira!

OFuxico - Criar Malhação: tinha ideia de tamanho sucesso entre adolescentes e demais idades?

Emanuel Jacobina - Nenhuma ideia. Nem eu nem Andrea Maltarolli. As únicas pessoas que anteciparam e apostaram nesse sucesso todo foram Flavio de Campos (roteirista) e Roberto Talma (foi produtor de cinema e dos mais importantes diretores de TV).

OF - Aliás, quando idealizou Malhação, via apenas jovens como principais telespectadores?

EJ -  Bem no início do projeto sim, pensávamos, eu e Andrea, principalmente em jovens, mas logo fomos entendendo que a TV Globo precisava de uma dramaturgia que interessasse a todos os públicos.

OF -  Como é ver algo no ar por tantos anos e com o sucesso crescente de cada temporada?

EJ - É legal. E tenho um grande mérito nisso, porém, o mérito maior é do conjunto de atores, diretores, produtores, cenógrafos, enfim, todos os artistas, técnicos e principalmente autores envolvidos a cada temporada. Nesse sentido, um mérito enorme é o da Globo, que reúne ano a ano essa gente toda.

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OF - Recebeu ou recebe muitas críticas dependendo do tema abordado nas temporadas?

EJ - Sim, muitos temas polêmicos em várias temporadas.

OF - Qual delas deu mais "pano pra manga" em relação a algum tema discutido pela novela?

EJ - O que gerou mais pano pra manga acredito que ocorreu em 2015, quando um rapaz infectado com HIV, Henrique, vivido por Thales Cavalcante, depois de uma cabeçada involuntária, que causou corte de supercílios e troca de sangue, entre ele e uma colega de escola, a Luciana, vivida pela Marina Moschen, orientou a menina a procurar uma médica do SUS que, por sua vez, recomenda o protocolo do Ministério da Saúde da época, ou seja, um tratamento de PEP. A PEP é um tratamento preventivo, no qual a pessoa deve tomar, durante 28 dias consecutivos, medicamentos antirretrovirais, em até 72 horas após a exposição ao vírus. Existem três situações em que a PEP é receitada: violência sexual, ato sexual consentido sem proteção com pessoa sabidamente soropositiva e por acidentes ocupacionais e profissionais - que foi o caso. Como a chance de transmissão seria mínima, mas existia, eu indiquei o tratamento apesar da pouca probabilidade. Fui muito criticado por levantar essa bola sem apresentar o conjunto amplo de informações que a situação exigia, e acusado ainda de não ter contribuído para o avanço da discussão do tema. Foi uma crítica dura, vinda de muita gente e muitas organizações que eu respeito. Felizmente, a Unaids, que até então me dava uma consultoria apenas informal, me abraçou e me ajudou bastante a aprofundar a discussão, tanto na novela, quanto na sociedade. Até hoje sou muito agradecido ao Daniel Castro e a Georgiana Braga-Orillard da Unaids, e ao Gabriel Estrela, indicado por eles, pela colaboração. Escrevi um série para a Internet, Eu Só Quero Amar" com o Filipe Lisboa e a Giovana Moraes, pela qual fui convidado a ir à sede da organização, na Suíça, onde tive oportunidade de conhecer o diretor executivo Michel Sibidé e dar uma pequena palestra aos funcionários da entidade sobre entretenimento e responsabilidade social.

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OF - E teve também indicação a prêmio, não é?

EJ - Sim. Ao fim, fomos indicados ao prêmio Emmy Internacional, na categoria "Kids Digital", com "Só quero Amar". Não vencemos (ganhou a série norueguesa "Three Girls"), mas só a indicação foi um reconhecimento e tanto ao trabalho que fizemos em torno do tema da HIV. Também é verdade que as críticas me geraram um aprendizado duro sobre a força de grupos organizados nas redes sociais - para o bem e para o mal.

OF - Onde busca inspiração para assinar a autoria de algumas temporadas?

EJ - Assinei como autor titular as temporadas de 1999, 2000, 2010, 2015, 2016 e 2019. Fui supervisor de texto da temporada de 2001, e colaborador nas temporadas de 1995 e 1996. Escrever, em geral, é uma libertação. Escrever dramaturgia diária de algo que dura 250 capítulos para um público de mais de 20 milhões de pessoas diariamente é empolgante, mas também é uma escravidão voluntária.

OF - Qual foi a temporada que mais te emocionou?

EJ - Todas as que escrevi. Escrevo com os nervos à flor da pele, chorando, rindo e falando sozinho quase o tempo todo.

OF - Qual a temporada que "deu mais trabalho"?

EJ - A de 2015, Seu Lugar no Mundo.

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OF - Por quê?

EJ - Porque tive que escrever metade dos capítulos dessa temporada enquanto preparava a sinopse e outros 60 capítulos da temporada seguinte, Pro Dia Nascer Feliz. Essa sim, uma temporada tranquila. Mas foi a única vez nesses 25 anos em que um autor escreveu duas temporadas seguidas: Seu Lugar no Mundo e Pro Dia Nascer Feliz.

OF - O público jovem é mais interessante de lidar do que o mais adulto?

EJ - Na verdade, existem inúmeros públicos adultos: a vovó de classe média, a vovó da classe mais pobre que costura pra fora, o vovô rico, a mulher de 25 sem filhos, a mulher de 40 com filho de 20, ou de 10 anos;  adulto homem desempregado, o aposentado.... enfim, quando se fala de público adulto no Brasil se está falando de uma multidão bem heterogênea. Os jovens também são muito heterogêneos, mas têm em comum pelo menos uma alternativa mais simples: estar na escola ou não.  Nesse sentido, escrever dramaturgia realista sobre jovens implica quase que obrigatoriamente esse ambiente de escola.  Por isso, em 1999, tirei "Malhação" de dentro de uma academia de ginástica e coloquei como cenário principal uma escola. E a gente que escreve dramaturgia para TV aberta está sempre escrevendo para todo tipo de público ao mesmo tempo. Mas respondendo de outra forma, hoje, prefiro escrever sobre adultos para públicos de todas as idades.

OF - Toda Forma de Amar foi uma das maiores audiências. O que você pode atribuir para mais essa conquista?

EJ - São sempre muitos fatores: a história, humana e realista, agradou ao público, tivemos também um elenco fantástico, orientado com maestria pelo Adriano Melo e demais diretores e assistentes de direção. Cenografia maravilhosa do Alex, fotografia maravilhosa do Nonato e do Casesque, figurino maravilhoso da Renata, produção espetacular do Maurício e assim por diante. Todo mundo envolvido nesse projeto deu a alma, fez com amor.

OF - Em seus 30 anos de carreira o que mais te dá satisfação em escrever, tipo humor, novelas...? 

EJ - Novela dialoga com o país que temos, mesmo não sendo uma obra orientada pela política e para a política, ela interroga, questiona e problematiza o Brasil, os brasileiros, por meio de uma ação dramática que se realiza na telinha na presença - ainda que distante - do público. Se o público é levado a refletir sobre o que escrevemos e encenamos, essa reflexão é um subproduto do nosso trabalho, que tem como primeiro objetivo o entretenimento. Esse entretenimento, por sua vez, tem que ter alguma dose de humor, tem que ser, ao menos parcialmente, embalado em humor. Então, não concebo a possibilidade de se escrever novela sem humor. Portanto, respondendo, eu prefiro escrever novelas, mas que tenham humor.





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