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13/05/2020 | 07h22m - Publicado por: Miguel Arcanjo Prado | Foto: Divulgação

'Mídias sociais denunciam racismo da TV', diz Sidney Santiago

Em entrevista exclusiva, ator fala sobre representatividade negra

'Mídias sociais denunciam racismo da TV', diz Sidney Santiago - Divulgação

Neste 13 de Maio, dia em que o Brasil recorda os 132 anos da abolição da escravidão, o ator Sidney Santiago Kuanza, estudioso da representatividade negra na TV, fala sobre o assunto nesta entrevista exclusiva concedida ao jornalista Miguel Arcanjo Prado para OFuxico.

O ator paulista viveu em 2019 o personagem Gero na série Segunda Chamada da Globo, emissora na qual havia atuado dez anos antes na novela Caminho das Índias, como o jovem esquizofrênico Ademir. Entre outros trabalhos de destaque, ele interpretou Sapião na novela Escrava Mãe, na Record, em 2016, e contracenou com Marina Ruy Barbosa no filme Sequestro Relâmpago, em 2018. Sidney ainda é um dos fundadores da Cia. de Teatro Os Crespos, focada em teatro negro há 15 anos.

Leia a entrevista.

OFuxico: O que melhorou historicamente para o negro na TV e o que precisa melhorar?
Sidney Santiago Kuanza – Não vejo melhoras significativas nos últimos 30 anos na TV brasileira. Existiram alguns avanços, mas eles foram possibilitados por uma série de manifestações que surgem em rede. Ou seja, diante da escassez, as mídias sociais denunciam o racismo estrutural da TV brasileira. Existe um processo de consciência, mas a teledramaturgia ainda é o setor mais conservador e estático do campo do entretenimento e das artes. Atualmente, comando um estudo sobre a presença do negro na teledramaturgia dos anos 1990 em comparação com os anos 2000, e pasmem, existiam mais personagem com relevância social há exatos três décadas passadas.

OF: E na publicidade, mudou algo?
Sidney Santiago Kuanza – Houve uma mudança gradual na inserção de atores negros e negras na publicidade brasileira, por conta de incontáveis processos de exposição exigindo essa presença, barganhando inclusive com o boicote a diversas marcas , mas a teledramaturgia guarda  um monopólio que envolve raça, classe e hereditariedade, colocando assim esse seguimento em uma plataforma de difícil acesso para pensar pluralidade.

OF: Como melhorar esse cenário?
Sidney Santiago Kuanza
– O cenário pode melhorar com a inserção de políticas afirmativas e com o ingresso de roteiristas, diretores e atores negros. A presença desses atores ainda é sazonal. E um bom ator é formado, como disse Ruth de Souza, em 1954, pelas suas experiências de continuidade. A televisão brasileira só poderá mudar alguma perspectiva quando for pautada pela Lei, ou seja, uma pressão dos poderes. Estamos em 2020, e a telenovela brasileira é estrangeira ao seu próprio povo, promovendo diversas abordagens racistas que são naturalizadas diariamente.

OF: As séries por streaming ajudam a trazer mais diversidade e representatividade negra na TV?
Sidney Santiago Kuanza
– Sim, porém precisamos ter cautela ao analisar este novo fenômeno. O que podemos perceber é uma presença maior de artistas e criadores negros e negras, porém diferente de outros países onde essas séries conseguem revolucionar mais as pluralidade locais, no Brasil, vejo um estacionamento dessa possibilidade. E o streaming muitas vezes surge reatualizando estereótipos depreciativos relacionados historicamente ao negro, ou funda novos. É cedo para fazer uma análise mais completa, porém, com todas as lacunas da teledramaturgia, o streaming tem se mostrado mais do mesmo, ou seja, os negros estão atuando em geografias conhecidas e pré-determinadas pelo racismo estrutural.

OF: Por quê?
Sidney Santiago Kuanza
– Isso tem acontecido por conta das parcerias onde 84% dos diretores das séries realizadas no país são homens brancos, heterossexuais das classes média e alta, isso continua a pautar o nosso imaginário de mais de 200 milhões de habitantes. A população precisa pressionar essas plataformas para não continuarmos reféns de um sistema perverso que nos atinge em nossas potências de vida. Escrever, fazer vídeo, campanhas e expor a ausência e os retratos caricaturais e irresponsáveis. A população precisa entender o seu poder de mudança e recusa.

OF: Que tipo de personagem você gostaria de fazer na TV?
Sidney Santiago Kuanza
– Em um momento tão delicado da história brasileira, onde hoje já se somam oficialmente 13 mil mortos impactados pela pandemia do covid 19 e pela total ausência e irresponsabilidade do Estado, os personagens populares que possam trazer comicidade e alegria ao povo e os históricos, como os dos escritores Lima Barreto, Machado de Assis, Carolina Maria de Jesus e Ariano Suassuna, seriam um prato cheio. Gosto do humor, embora minha carreira foi muito pontuada pelo drama, mas sou pau para toda obra. Amo o meu ofício e o que vier com dignidade, “nóis” faz!

OF: Você tem feito coisas importantes no cinema e teatro?
Sidney Santiago Kuanza
– Recentemente fiz dois longas-metragens: Lima Barreto ao Terceiro Dia, direção de Luís Antônio Pilar, onde contamos a vida do escritor Lima Barreto e divido o personagem com o ilustre Luís Miranda, e um outro filme chamado Novelo, com direção de Claudia Pinheiro, que fala sobre as gerações de uma família e seus laços. São filmes lindos e profundamente brasileiros, para dizer que nem tudo está perdido. No teatro, estou celebrando os 15 anos da Cia. de Teatro Os Crespos, com uma série de lives em parceria com o Centro Cultural São Paulo a partir do dia 26 de maio, às 19h30, no projeto Terças Crespas. E que a arte se entendida como uma potência de transformação será uma ferramenta e tanto para vencer o autoritarismo.

Sidney Santiago Kuanza e Marina Ruy Barbosa no filme Sequestro Relâmpago





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