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Caetano Veloso afirma que prisão tirou atração por homens

Reprodução/Instagram

A experiência de Caetano Veloso com a Ditadura Militar foi brilhantemente cantada em verso e prosa, e o artista baiano vez por outra revela mais detalhes do período conturbado de repressão. Ao participar da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip 2020, virtualmente num encontro pré-gravado com o escritor espanhol Paul B. Preciado, que está em Paris, mediado pelo mexicano Ángel Gurria-Quintava.

Preciado, autor de Um Apartamento em Urano e um dos primeiros pacientes do covid-19, perguntou sobre o significado do título Narciso em Férias, que Caetano tirou de um capítulo de um livro de F. Scott Fitzgerald.

"Narciso é um deus básico, e, em geral, usam a palavra de Narciso de maneira pejorativa. Fiquei numa solitária. Depois de alguns dias sem ninguém falar comigo, deitado no chão, houve uma espécie de apagamento do meu reconhecimento de mim mesmo. Senti que Narciso estava, de fato, em férias", respondeu.

O artista baiano lembrou que o livro do escritor americano lhe veio à mente quando ficou numa solitária, preso pela ditadura militar, tema de sua obra. E, ao ser questionado sobre bissexualidade, Caetano disse que os 54 dias de cárcere apagaram nele a atração por outros homens.

“O espaço muito masculino da prisão militar causou outro apagão no Narciso aqui, que foi da atração sexual e sentimental por homens. Fiquei com uma rejeição sexual em relação à figura dos homens, que eu não tinha”, disse Caetano.

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Negação

Durante a mesa, que se chamava Transições, o marido de Paula Lavigne citou paixões que teve por homens e mulheres na juventude. Mas destacou que recusava ser rotulado como bissexual.

“Aos dezenove, me apaixonei por um amigo. Apaixonar significa você sentir aquela imensidão dentro da sua alma na presença da pessoa, no pensamento, nos sonhos. Não teve história, porque ele não quis. Podia ter me casado com ele, e tenho certeza de que meus pais assimilariam muito bem. Mas muitas pessoas que eu conhecia usavam essa expressão ‘bissexual’ para efeitos muito inautênticos. Então eu dizia: ‘também não quero esse (termo)’”.

Caetano recitou, em espanhol, versos de uma poeta russa do início do século XX que falavam sobre amar somente um gênero e o horror que isso provocava nela. E o cantor finalizou sua participação citando sua visão da masculinidade e do binarismo sexual.

“O modelo de masculinidade que é ensinado desde a infância pela sociedade não foi aceito por mim como o indiscutível, ao contrário. Foi algo com que eu tive uma relação, mais do que de desconfiança, de problematização, que nunca morreu”.