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Felipe Camargo rejeita a fama: ‘Viver da forma mais simples possível’

Divulgação/TV Globo

Felipe Camargo chegou a sonhar em ser arquiteto, mas começou a carreira por acaso num curso de teatro oferecido na empresa. E não parou mais. Lá se vão 40 anos de carreira com destaque para "Anos Dourados", 1986, uma das séries de maior sucesso da Globo. A pandemia tem trazido momentos de angústia para o ator que está longe do filho mais velho [Gabriel, fruto do seu relacionamento com Vera Fischer] e do trabalho. Escalado para "De Volta aos 15", Netflix, protagonizado por Maisa Silva, ele não vê a hora de tudo passar e poder trabalhar com o que gosta.

Ao OFuxico, Camargo comentou sobre a importância da arte e dos filhos em sua vida, a carreira e o atual momento do Brasil em meio à pandemia.

Um dos destaques de sua carreira é a novela "Paixões Proibidas", Band, que ousou em cenas de sexo. Felipe disse que acredita que a arte pode ser uma grande aliada no combate ao preconceito e rejeita a fama, o culto a celebridade: “Acho um horror um artista se sentir superior a alguém, tento viver da forma mais comum possível”.

Casado com Malu Guimarães e pai também de um garoto, Antônio, Felipe tem se resguardado ao máximo por conta da Covid-19, como uma forma de matar a saudade dos amigos, o ator se reúne toda segunda, pelo Youtube, no canal, Essescaravelhos, para falar sobre arte, entre outros assuntos. Nas horas vagas se dedica à literatura, séries e filmes. Atualmente, está na reprise de “Malhação Sonhos”, vivendo um triângulo amoroso com as personagens de Patrícia França e Danni Suzuki,  e mais recentemente na série "Todas as Mulheres do Mundo".

Confira! 

A descoberta da profissão

“KKK. Olha, não tinha a menor ideia do que eu queria fazer quando me tornei ator. Uma coisa que eu gosto é arquitetura. A gente sempre foi cercado por grandes arquitetos na família. A irmã do meu avô foi casada com o Oscar Niemeyer. E ele frequentava a nossa casa. Eu e minha mãe fomos no aniversário de 100 anos dele. E o Sergio Bernardes também. Eu sempre via casas fantásticas, construções… Sempre achei a arquitetura uma profissão muito bonita, mas eu não me sentia com talento pra fazer."

"Eu descobri a minha profissão [ator] quando eu estava trabalhando surgiu um curso de teatro na empresa, fui como voluntário já que ninguém quis fazer. E falei: ‘nossa, é isso que eu quero’. Eu podia ser qualquer coisa… O ser ator foi muito revelador pra mim. Entrei num curso de teatro, tablado, fiz uma peça naquele mesmo ano com o Carlos Wilson, 1982, de enorme sucesso. Saí da empresa em julho de 1981, e em seis meses eu estava trabalhando como ator."

A arte me ajudou a descobrir o que eu queria na vida. O teatro me ajudou bastante no processo de inclusão e empatia. Ele trabalha muitas emoções. A gente pensa a vida, o ser humano em todas as esferas que ele pode surgir, se aproximar… “.

Papéis marcantes

“Eu era ator de teatro, pouco conhecido. Fiz uma minissérie que é a de maior sucesso na Globo até hoje que foi ‘Anos Dourados’. Nenhuma teve o sucesso que a série teve. E não vai ter mais. O mundo mudou a forma de assistir as coisas. Hoje tem milhões de formas, o público se divide, mas nada vai superar o sucesso de Anos Dourados como série”.

Felipe Camargo coleciona grandes trabalhos na TV

Fama, celebridade…

“Sempre tive dificuldades com esse lance da profissão, eu gosto mesmo é de trabalhar, de estar atuando. O momento mais feliz da minha vida é quando estou trabalhando…"

"A Fama…Eu gosto de me sentir uma pessoa comum, que é o que nós somos…Eu acho um horror um artista se sentir superior a alguém. O que a gente faz é tentar retratar realidades, e não dá pra você [artista[ viver num pedestal. Eu tento viver da forma mais comum possível, converso com todo mundo. Adoro quando as pessoas não me reconhecem. E aí me sinto bem comum, igual mesmo!”.

Efeitos da pandemia na carreira

“Agora, estou passando por uma crise muito grande. Estou fazendo uma série que está parada [De Volta aos 15, Netflix]. Não podemos trabalhar, o ano passado inteiro parados, são momentos angustiantes… Todos nós artistas estamos sofrendo. Dependemos de uma produção. Fico tentando ler, vejo séries, falta concentração, não tá fácil mesmo…Até consigo dormir. Mas já tive noites de passar noites em claro, dias angustiantes. Quando é que a vida vai voltar ao normal…"

"Hoje minha maior preocupação é me manter vivo, não pegar esse vírus. Acabou essa de jantar fora, aglomerar de jeito nenhum. Saio às vezes para andar de bicicleta. Não abraço, não vejo meu filho mais velho desde março do ano passado, ele tá levando super a sério, trabalhando de casa. Sinto uma saudade enorme, nos falamos por vídeo, telefone. É o que temos pra hoje”.

Felipe, pai e quem sabe avô…

“Risos. Cara, meu primeiro filho mudou a minha vida completamente, eu realmente tive que amadurecer. Foi uma transformação muito grande na minha vida. O amor pelo meu filho mais velho me fez parar de beber, de usar droga. O meu amor pelo meu filho mais novo me fez ter um cuidado maior comigo para viver bastante e criar ele. É uma grande responsabilidade, eles são os amores da minha vida. Meus pais tiveram acertos e erros. Eu procuro ter os acertos dos meus pais e não cometer os erros com meus filhos, simples assim”.

De volta aos 15, Netflix

“Eu faço o pai da protagonista, e ela tem um resgate com esse pai, temos cenas bem sensíveis, ela se aconselha com esse pai. Todo adolescente, talvez quando cresce, se arrepende de não ter ouvido seus pais na adolescência. Tem esse resgate da relação…É isso o que eu posso contar. E voltando à questão da criação dos meus filhos, eu também me lembro e penso que poderia ter escutado meu pai quando eu era adolescente”.

Liberdade de expressão

“É muito preocupante o que estamos vivendo. Ficamos com a sombra de uma ditadura, não temos liberdade de expressão. Veja o que atingiu o Felipe Netto… Tentaram cercear ele e ele conseguiu reverter essa situação. Vejo o país muito dividido, uma parcela da população está caindo no conto do vigário, com opiniões muito radicais. Você não pode discordar que é comunista. Estamos vivendo um caos na saúde em meio à pandemia, hospitais em colapso, não dá… O Brasil está pedindo socorro”.

Sexo na arte, na TV

“Só não gosto do sexo gratuito. Uma cena de sexo pra chamar a audiência. Quando uma cena de sexo é bem retratada, de uma forma artística, ela fica muito bonita e mais atrativa. A trama [Paixões Proibidas, Band] tinha uma preocupação artística, gostei muito de fazer. Cenas de sexos são as mais difíceis de se fazer, e até constrangedoras…Tem um monte de gente em volta, tem uma repercussão enorme. É a intimidade dos casais. É delicado. A cena que eu fiz a cena mais forte foi a de maior ibope, o público gosta de ver, a cena foi muito bem retratada, foi sútil”.

Saudosista

“Em Anos Rebeldes eu tenho saudade de uma época [Anos 50] em que eu não vivi. Aquela história de amor linda, as músicas. Mas eu tenho saudade da minha juventude, de um Rio de Janeiro menos preconceituoso nos anos 80. Os anos 80 foram anos brilhantes, e com a AIDS no final dos 80, no Brasil mais nos anos 90, veio um preconceito muito grande com os homossexuais. O mundo não se recuperou, vejo o mundo mais preconceituoso do que era antigamente, nos anos 80, 70… “.

A arte como forma de quebrar preconceitos

“A igreja católica sempre esteve atrasada com os acontecimentos, e ela acabou de impedir a união entre duas pessoas do mesmo sexo. E isso ia ajudar muito a tirar o preconceito, e isso foi um passo atrás enorme que eles deram. Mas tem outras igrejas também. O fanatismo religioso é muito ruim. Em qualquer religião. O que o mundo tem a ver com a vida do outro, com a orientação sexual do outro. Eu não tenho nada a ver com a vida do meu vizinho. Eu quero a felicidade dos meus amigos, vizinhos. A gente vive melhor assim. Se você olhar com preconceito é um horror, um atraso. A arte sempre esteve à frente, sempre propôs algo, dando possibilidades para o mundo evoluir. A arte sempre está mostrando as possibilidades que o ser humano pode ter, o ser humano não pode perder o livre arbítrio. Você não pode fazer quando seu espaço termina e começa o do outro”.