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Guilherme Fontes relembra cenas de Alexandre em A Viagem: ‘Denso e divertido’

Divulgação/TV Globo

Admirador da obra de Nelson Rodrigues, Guilherme Fontes sabe que “grandes papéis não aparecem todos os dias”. Com mais de 40 anos de carreira, o profissional tem um carinho especial do público por conta de Bebê a Bordo 1988, Mulheres de Areia 1993, A Viagem 1994 e Estrela Guia 2001. Em sua carreira estão sucessos como A vida como ela e Boca de Ouro, série e longa dirigidos por Daniel Filho e baseados na obra de Nelson.

Ao OFuxico, Fontes falou de suas escolhas e da importância do artista produzir e ter muitos planos, afinal, a carreira é instável. Guilherme acredita que com o fim da pandemia, o mercado audiovisual contará com muitos trabalhos graças às empresas de streaming como Disney+, Prime Video, HBOMax, Globoplay, entre outros. Protagonista da polêmica série Pacto de Sangue, ele torce por uma nova temporada.  Como diretor tem em seu currículo Chatô, o Rei do Brasil, longa que conta a história de um dos primeiros magnatas da TV no Brasil. As duas obras estão na Netflix.  

Sobre seu papel mais marcante, Alexandre de A Viagem, reprise no Viva, ele diz: “Um encontro de semideuses personificados em grandes artistas. Essa ficou e parece que vai ficar pra sempre”.

E sabe do que ele mais sente falta? Da pureza retratada em Estrela Guia ao lado de Sandy: “Quando penso na novela, penso na vida… na paz e no amor pleno”. 

Confira!  

OFuxico: O que a arte representa em sua vida?
Guilherme Fontes:
Uma busca incansável pelo o que é belo, no sentido profundo, mais profundo, mais cômico, mais emotivo, mais sensorial, por dentro e por fora, de longe e de perto, da vida humana na terra. No meu caso, ator, diretor e criador, tento reviver todos os atos e sentidos humanos. É maravilhoso.  

OFuxico: Se recorda da primeira cena? Teste?
Guilherme Fontes:
(Risos). O pulo do gato. O momento da decisão em seguir a profissão se deu quando ainda adolescente tive que provar pra mim e pros outros que entendia Nelson Rodrigues, um dos grandes autores e dramaturgos brasileiros. Personagens muito durões, viscerais e eu ainda muito “verde”, muito jovem e pinta de príncipe. Fui picado desde o início por Nelson Rodrigues.

OFuxico: O que te levou a ser diretor?
Guilherme Fontes:
Desde o início. Encontrei matérias que diziam isso. Uma válvula de escape pro futuro. Grandes papéis não aparecem todos os dias. Importantíssimo o artista criar meios para fazer seus personagens, passar suas mensagens, sua arte.  Produzindo e dirigindo, você controla muito bem todo processo. Além da enorme cumplicidade com os atores e colegas de palco. Sinto eles muito cúmplices e confiantes comigo. Sempre saímos felizes e satisfeitos de um set de filmagem que dirigia.

OFuxico: A carreira no Brasil é complicada mesmo, em comparação aos EUA, Europa ou é tudo igual?
Guilherme Fontes:
Está melhorando muito. Mas longe de ser estável. Lá é igual. A diferença é que eles produzem 100x mais que aqui. Só agora teremos uma explosão generalizada de produção de conteúdo. Muitas empresas, e não só a Globo, que mantém a liderança há anos, estão finalmente interessadas no mercado brasileiro. Umas 8 a 10 gigantes do conteúdo vão comprar conteúdo original em português e disputar o mercado, levando conteúdo português pro mundo. Isso é fantástico. Elas estão em outros enormes mercados. Isso é valorizado em termos de distribuição. A internet, o streaming e tudo mais, chegaram pra salvar a humanidade da desinformação e do aculturamento promovido por tiranos. Creio que depois da pandemia, das vacinas, vamos crescer muito rápido e bem melhor.  

OFuxico: Ator tem seus altos e baixos?


A carreira precisa ser muito longeva. Tem que segurar. Montanha russa. Por isso, produzir sempre ajuda muito a manter se vivo.  Como sempre disse: “se não convidam, a gente convida eles.”

OFuxico: Qual é o seu plano B? Um ator precisa ter um plano B, pensar no futuro?
Guilherme Fontes:
Produzir, teatro, cinema, televisão, existe também o plano C, o D e o todo um alfabeto. A vida é uma beleza, faça planos e conquiste apenas um dos seus planos, ou uma parte dele por dia, dos mais simples aos mais difíceis. Viver um dia de cada vez.  

OFuxico: Qual personagem exigiu de você maior empenho?
Guilherme Fontes:
Todos têm sacrifício e prazer. Em dose certa, tem dado certo.  

OFuxico: Qual personagem te levou à fama de uma forma estrondosa? E por quê?
Guilherme Fontes
: São fases da vida. Tô com 40 anos de estrada. Existe a busca da fama, do prestígio, da popularidade, da realização. São coisas que andam juntas e separadas na carreira.  Comecei no teatro amador, depois fiz cinema, o que dava muito prestígio. Agora são as séries. Só depois fui pra TV aberta, que traz fama, popularidade e independência financeira. E, depois, comecei a produzir e dirigir, assim sigo independente. Dentro do possível. (risos). 

OFuxico: Como lida com o assédio?
Guilherme Fontes:
Bem. Converso, pergunto, gosto da rua, do corpo a corpo. Gosto de ser normal. Faço tudo, como sempre fiz.

OFuxico: A Viagem é uma obra atemporal?  Por que ela é tão importante em sua vida?
Guilherme Fontes:
Foi um encontro de semi deuses personificados em grandes artistas. Do autor, do diretor, dos atores e técnicos envolvidos. Acontece poucas vezes na vida. E ficam. Essa ficou e parece que vai ficar pra sempre. Esta foi a 5a vez exibida e com muita audiência e liderança. Como se tivesse estreado ontem. 

Guilherme Fontes interpretando Alexandre em A Viagem

OFuxico: Se recorda de em algum momento as cenas pesadas do Alexandre influenciarem sua vida?

Andando pelo pântano mergulhado naquele de chorumes, almas penadas e fogo, cheio de “cadáveres” e tudo mais. Denso e divertido. 

OFuxico: É saudosista?
Guilherme Fontes:
Pouco. Gosto de saber que a vida tem sido bem intensa. E acelerada. Sempre gostei de envelhecer. Já nasci “velho”. Certinho. Classe média. Trabalhei desde cedo. Sempre muito livre e independente desde adolescente.

OFuxico: A série, do Space, toca em assuntos polêmicos. O que mais destaca na história? Como foi o processo de estudo e gravações? Como foi conhecer a região norte, a cultura local?
Guilherme Fontes:
Fascinante. O norte. O cenário.  O Pará é um Brasil muito mais real. Primitivo. A linguagem especial é corretíssima. Um charme. Os desafios sociais imensos. A Floresta. Muito potente este personagem de Pacto de Sangue. Queremos mais. Vencida a pandemia. Pacto de sangue 2. Quem sabe. Os produtores querem, estão escrevendo. O tema e os personagens são inesgotáveis. Um apresentador de noticiário famoso, sem escrúpulos, em ascensão na política e um policial com crises de consciência e abstinências. Adoro. 

OFuxico: Fazer uma obra baseada em fatos reais e tristes é mais complicado?
Guilherme Fontes:
Temos excelentes referências por serem possivelmente reais. Pacto não é um documentário. É uma obra de ficção. Tudo vale.  

OFuxico: Como foi a reação do público?
Guilherme Fontes:
Falam sempre comigo nas ruas sobre este personagem produzido pela Turner, canal Space. Agora está na Netflix. Então é revisitado sempre. Sou abordado pelos taxistas, frentistas, gente do povo adora a série. 

OFuxico: Terá segunda temporada?
Guilherme Fontes: Tudo indica. Os produtores estão concluindo os novos roteiros com os exibidores de 1a e 2a janelas. A pandemia minguou nossa expectativa de retomada novamente. Com a vacina chegando o setor voltará com força total. Centenas de canais precisando de conteúdo original. E caminhar nessa direção. Praticar e continuar a produzir algo original que fique ao menos pra mais de uma geração, sendo exibido em algum canto. Dá muito trabalho ser original. Precisa de sorte também. Educação. Empatia. Vou continuar a ficar do lado da empatia. Fora hipocrisia. Fora ódio e recalques. Faça o seu. Publique em suas redes. Proteja seu público.