Opinião às 10:00

Manhãs de Setembro faz de Vanusa a porta-voz de reflexões importantes

Foto de pôster da série Manhãs de Setembro com Liniker e Gabriel Coelho

‘Manhãs de Setembro’ é uma reflexão em homenagem à Vanusa

“Eu quero sair / Eu quero falar / Eu quero ensinar o vizinho a cantar”, solta Vanusa, com sua voz potente, no refrão de“Manhãs de Setembro”. Não coincidentemente, este é o título da nova série brasileira do Amazon Prime Video, que tem como protagonista a cantora e atriz Liniker.

Focada em Cassandra (Liniker), a obra é sim mais um retrato ficcional da realidade. Mas, ao contrário das maquiagens clichês com choros sensacionalistas e o falso vale do arco-íris LGBTQIA+ para queerbaiting, “Manhãs de Setembro” mergulha no cinza de São Paulo enquanto homenageia a grande Vanusa.

Parece uma mistura sem pé nem cabeça, impossível de dar certo. No entanto, ao longo de cinco episódios com, no máximo, 36 minutos, embarcamos em narrativas tão bem amarradas que nos fazem acordar do transe e nos lembram que a vida real é assim, mas sem o “glamour” das câmeras.

No primeiro episódio vemos Cassandra, feliz, conquistando uma kitnet própria depois de tanto suor derramado em trabalhos. 

Ela é uma motogirl, tem um relacionamento feliz, é trans (assim como a atriz e cantora que lhe dá vida), canta em uma boate, tem grandes amigos e ama Vanusa!

“Essa personagem tem uma ligação muito forte com a minha mãe, como se ela fosse uma guia dessa personagem”, disse Rafael Vannucci, filho da artista e responsável por autorizar os trâmites da produção, ao OFuxico.

E é verdade! Cassandra conversa com Vanusa em diversos momentos, como se a diva fosse a sua consciência. Dá conselhos, puxa orelha, debate.

“Minha mãe falou muito com o público LGBTQIA+, feminino. Ela tem importância para essas pessoas e ter uma série que aborda esses temas é dar visibilidade e espaço a eles”, acrescentou Vanucci. 

Contudo, uma reviravolta acontece, abrindo camadas na história. O conto de fadas, a labuta diária que pareciam ser mais do mesmo, dão espaço a discussões importantes, profundas em diferentes visões.

Humanização, normalização, libertação

Tudo muda com a chegada de Leide (Karine Telles), a mulher com quem Cassandra se envolvia antes da transição, uma sem-teto que vive como camelô e mora num carro velho. 

Só que ela aparece com um bônus: a responsabilidade de um filho, o Gersinho (Gustavo Coelho), cuja existência nem passava pela cabeça de Cassandra.

Prestes a completar 10 anos, o menino só queria conhecer seu verdadeiro pai. Por isso, a loira, de repente, bate à porta de sua ex. Conforme a trama segue seu curso, somos apresentados ao desejo de Leide em buscar sua liberdade também, tal como Cassandra, ao tentar dividir a criação do filho a partir daquele momento.

É nesse conflito que se concentra a verdadeira história de “Manhãs de Setembro”. Ao mostrar duas formas de maternidade e suas dificuldades, a série, de forma autêntica e muito otimista, deixa de lado a representação que parecia ser o foco central, e humaniza, discute, faz refletir.

Ora, temos duas mulheres que desejam a liberdade sonhada. Leide não teve a chance, porque cuidava de um filho aos trancos e barrancos. Cassandra, embora sem saber da existência da criança, enfrenta o preconceito e carrega nos ombros as dificuldades de ser uma mulher preta, pobre e trans no país que mais mata pessoas como ela. Mesmo rejeitando inicialmente a figura de Gersinho, ela logo se desdobra e começa a mostrar afeto à “novidade” – um gesto nítido de instinto materno, de cuidado e proteção. 

“Uma série nacional, com atrizes, atores fantásticos. Equipe, elenco maravilhosos. Muito bem escrita, dirigida”, elogiou Rafael Vannucci, destacando Liniker. “Ela está linda, perfeita. De uma interpretação brilhante, sensível, e fiquei extremamente apaixonado pelo trabalho dela.”

O que poderia ser facilmente uma “lacrada”, na verdade, mostra uma história sobre família e acolhimento. Trouxe ao mainstream a importância de Vanusa para a música brasileira, a reforçou como uma “diva pop” verdadeira, mas manteve o pé no chão para tratar de assuntos necessários e nos faz enxergar a importância do apoio alheio.