Entrevista às 07:00

Príncipe Harry apela para terapia EMDR para lidar com a ansiedade. Especialista explica a técnica

Príncipe Harry demonstra um movimento da terapia EMDR

Foto: Reprodução Youtube

A ansiedade é um mal que afeta pessoas do mundo inteiro. Desespero, medo, ataques à geladeira, tudo depende do organismo humano de como irá reagir ao gatilho que leva até uma crise de ansiedade.

Uma nova terapia virou a queridinha do Príncipe Harry, que sempre reforça a necessidade de ajuda psicológica em todos os casos: a terapia EMDR – Eye Movement Desensitization and Reprocessing (Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares). A técnica já foi usada com veteranos de guerra em 1987 e, atualmente, com profissionais que enfrentam a linha de frente da pandemia da covid-19.

Em um vídeo da série The Me You Can’t See, sobre saúde mental, coproduzido por Harry e Oprah Winfrey, divulgado há um tempo, Harry dividiu sua experiência com a EMDR e garante que a mesma ajuda a lidar com seus traumas e suas ansiedades no dia a dia.

A técnica dessensibiliza e reprocessa momentos e foi projetada para ajudar pacientes a lidarem com memórias traumáticas,trata transtornos e tem um impacto bastante positivo no paciente.

O filho caçula de Diana Spencer (1961 – 1997) e do príncipe Charles revelou, na ocasião, que usa a terapia EMDR para lidar com as suas sensações de preocupação, medo e aflição sentidas, principalmente, quando ele vai voar para o Reino Unido.

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“Para mim, Londres é um gatilho, infelizmente, por causa do que aconteceu com minha mãe e por causa do que experimentei, e do que vi”, contou.

Harry revelou ainda assuntos bem pessoais que o atormentavam. Segundo ele, evitar falar sobre a morte da mãe e usar bebidas e drogas foi a técnica que escolheu para “controlar a ansiedade”.

“Sinceramente, eu não queria pensar nela, porque se eu pensar nela, isso vai trazer à tona o fato de que eu não posso trazê-la de volta e isso só vai me deixar triste e eu simplesmente tinha decidido não falar sobre isso.”

A TERAPIA EMDR

OFuxico conversou com a Psicóloga clínica e Terapeuta certificada em EMDR, Dilséa Grebogi (@psicologadilseagrebogi) , para entender um pouco mais sobre o que é, como funciona e quais os benefícios da terapia EMDR. Confira.

OFuxico: O que é a Terapia EMDR?

Dilséa Grebogi: “EMDR é uma abordagem de psicoterapia desenvolvida nos Estados Unidos no final dos anos 80 pela psicóloga Drª Francine Shapiro. EMDR significa “Dessensibilização e Reprocessamento por meio dos Movimentos Oculares”(“Eye Movement  Desensitization and Reprocessing”). É eficaz no tratamento de traumas, fobias, ansiedade, depressão, TEPT e outras desordens, além de ser uma abordagem aprovada e reconhecida pela Organização Mundial da Saúde  para tratar o Transtorno de Estresse Pós-Traumático e aprovada pelo NREPP – National Registry of Evidence-based Programs and Practices, que faz parte do Substance Abuse & Mental Health and Human Services, que é a mais alta qualificação possível para o reconhecimento da validação científica de uma abordagem psicoterapêutica.”

OFuxico: Como se trabalha esta terapia?

Dilséa Grebogi: “O EMDR permite o reprocessamento de lembranças difíceis e dolorosas através da dessensibilização e da integração do conteúdo neuronal disfuncional nos hemisférios cerebrais. Esse reprocessamento se dá através da estimulação bilateral do cérebro. O EMDR é, portanto, uma terapia de reprocessamento, na qual utilizamos estimulação bilateral de 3 formas diferentes: visual, auditiva e tátil. Entendendo que traumas e lembranças dolorosas são armazenados de forma inadequada no cérebro, o EMDR é capaz de reprocessar essas memórias traumáticas através da integração da informação que se encontra separada nos hemisférios direito e esquerdo.”

OFuxico: Ele traz de volta os acontecimentos?

Dilséa Grebogi: “De forma acelerada e adaptativa, o EMDR “imita” o que acontece durante o sono REM (Rapid Eye Movement – movimento rápido ocular), quando o cérebro processa informação diária, arquivando-a no passado.”

OFuxico: Existem fases de tratamento com EMDR?

Dilséa Grebogi: “A sessão de EMDR é baseada em um protocolo padrão de 8 fases (História clínica e elaboração do plano de tratamento; preparação; avaliação; dessensibilização; instalação da crença positiva; checagem corporal; fechamento e reavaliação) e 3 etapas (passado, presente e futuro). Vale ressaltar que este protocolo é adotado em nível internacional e todo terapeuta em EMDR deve passar por um treinamento adequado e adquirir capacitação para usá-lo em sua prática clínica.”

OFuxico: Quando procurar uma terapia EMDR?

Dilséa Grebogi: “Inicialmente, o EMDR foi utilizado para tratar traumas emocionais e sequelas provocadas por Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). A partir de então, as possibilidades de uso desta terapêutica se ampliaram e hoje ela se enquadra para o tratamento de inúmeros transtornos e desordens psicossomáticas, como TAG (transtorno de ansiedade generalizada), fobias, processos de luto, síndrome do pânico, depressões, compulsões, TOC (transtorno obsessivo compulsivo), dores crônicas, além de apoiar na busca por autoconhecimento. No entanto, a maior parte das pessoas buscam a terapia EMDR para o tratamento de trauma psicológico. Quando alguma experiência passada insiste em permanecer no presente, pode significar a existência de um trauma emocional. A passagem por experiências trágicas e perturbadoras, como a perda de pessoas queridas, ameaças, violência urbana, doméstica e risco de morte, são potencialmente traumatogênicas e poderão vir a desenvolver um trauma. Sempre que a pessoa lembra da experiência difícil ela revive e sofre novamente, como se estivesse passando de novo por aquela situação. Um dos sinais de um cérebro em situação de trauma é a hiper-vigilância, que é a constante prontidão contra alguma ameaça real ou imaginária. Essa condição é extremamente dolorosa para a pessoa que a vive, pois influencia diretamente no seu dia a dia, na sua vida pessoal, familiar, social e nas relações de trabalho.”

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OFuxico: A terapia EMDR tem quantidades necessárias semanais ou depende de cada caso?

Dilséa Grebogi: “As sessões de EMDR são realizadas focadas em um Plano de Tratamento onde serão utilizados protocolos específicos para cada caso, a fim de buscar a reestruturação emocional do paciente. Geralmente o tratamento se dá com uma sessão semanal de 50 a 60 minutos (em algumas situações podendo se estender até 90 minutos). Alguns casos mais complexos poderão demandar mais cuidados e necessitar de mais de uma sessão por semana. Existem também protocolos para algumas situações bem específicas que poderão ser atendidos de forma intensiva, em sessões de 12 horas (divididas em 2 dias consecutivos). Neste caso o paciente deverá passar por uma triagem para averiguar se a demanda dele é ‘elegível’ para tratamento intensivo.”

OFuxico: Tem ideia de quantas pessoas já aderiram esse tipo de terapia?

Dilséa Grebogi: “Desde a sua descoberta em 1987 e sua utilização com veteranos da guerra do Vietnã, diversos outros contextos de catástrofes e tragédias tiveram intervenção desta terapêutica. Além do atendimento em consultório, cenários de guerra e catástrofes contam com a participação voluntária de terapeutas Emdristas no atendimento humanitário. No âmbito internacional o EMDR foi usado em várias situações trágicas, como a Guerra do Iraque, atendendo vítimas e veteranos. No Brasil temos o registro da atuação destes profissionais no atendimento às famílias das vítimas e aos sobreviventes do incêndio da Boate Kiss em Santa Maria/RS, do massacre da Escola Estadual Raul Brasil em Suzano/SP e do rompimento das barragens de Brumadinho/MG e Mariana/MG. No contexto da pandemia, tivemos várias iniciativas de grupos de terapeutas em EMDR que ofereceram apoio psicológico voluntário para pessoas que estavam com dificuldade de enfrentar o isolamento social e com medo da contaminação pelo coronavírus. Outra grande iniciativa foi o atendimento a profissionais da saúde que estão na linha de frente da COVID-19 e passaram ou estão passando por situações muito desgastantes no ambiente de trabalho, expondo estes profissionais à condição de trauma vicariante, que é o trauma por compaixão, onde acompanhar o sofrimento do outro pode desenvolver uma marca traumática muito dolorosa. A terapia EMDR possui protocolos específicos para atuação em estabilização de estresse agudo e episódios traumáticos diversos. Então, presume-se que milhares, talvez milhões de pessoas já tenham passado pelo atendimento em EMDR.”

OFuxico: Além do Príncipe William, qual outro famoso sabe que aderiu a essa terapia?

Dilséa Grebogi: No programa da Oprah Winfrey, vimos o Príncipe Harry falando sobre como o EMDR tem ajudado ele a lidar com as memórias traumáticas da perda mãe, a Princesa Diana. Na época ele tinha 12 anos, ou seja, estamos nos referindo a um trauma de infância e, este em especial, relacionado a um processo de luto que comoveu o mundo inteiro. Nesta entrevista ele mostrou uma das ferramentas utilizadas em EMDR, chamada “Abraço da Borboleta”, onde se utiliza a estimulação bilateral tátil. Além de Harry, a filha de Michael Jackson, Paris Jackson, declarou em uma entrevista que buscou o EMDR para tratar sua depressão e contou que já havia tentado suicídio várias vezes. Ela disse também que a terapia EMDR a ajudou a lidar com o assédio dos paparazzi após a morte de seu pai.

OFuxico: Então, o EMDR também auxilia mais famosos, que pensamos estar com a vida tranquila e sem problemas. Eles seriam alvos para que saibamos a importância e necessidade de cuidarmos da saúde mental?

Dilséa Grebogi: “Uma indagação importante a se fazer é sobre quantas pessoas que vemos na mídia, na televisão e nos castelos estão em sofrimento psicológico. Muitas celebridades carregam o estigma de serem perfeitas e terem uma vida de contos de fadas, no entanto, o que acontece nos bastidores e no mais profundo da alma dessas pessoas, só elas sabem. É preciso olhar além do que é visto, para aquilo que não é mostrado, apenas sentido. Dessa forma, o fato de tanto o Príncipe Harry quanto Paris Jackson terem compartilhado conosco suas maiores dores e seus maiores traumas, nos permite dimensionar a importância de cuidarmos da nossa saúde mental e emocional. E o fato de ambos terem escolhido o EMDR como abordagem terapêutica, chancela ainda mais a  sua eficácia no tratamento do transtorno de estresse pós-traumático e outras desordens psicológicas.”

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OFuxico: A terapia EMDR ainda não é tão divulgada no Brasil?

Dilséa Grebogi: “Considerando que o EMDR no Brasil ainda é, relativamente, pouco conhecido, poder acompanhar o quanto esse tratamento tem sido relevante na vida de pessoas famosas, isso nos ajuda a ampliar ainda mais a possibilidade de tornar o EMDR conhecido em nosso país, permitindo que mais vidas sejam atendidas, acolhidas e curadas das suas feridas emocionais.”

OFuxico: Existe uma perspectiva de tempo de melhora do paciente? Por exemplo, com um ou dois atendimentos consegue-se um “esclarecimento” do momento vivido pelo paciente?

Dilséa Grebogi: “Dependendo do alvo a ser trabalhado, poucas sessões já trarão uma mudança de paradigma na vida do paciente. Quem administra todo esse processo é o cérebro da pessoa que está sendo atendida. Se a rede de memórias envolvida no que está sendo processado naquele momento for pequena, o processamento adaptativo daquele conteúdo será mais rápido. Se a rede de memórias for muito grande, vai demorar mais.”

Dilséa, ainda ressalta:

“É importante ressaltar que a terapia EMDR não se restringe à estimulação bilateral. Trata-se de um processo terapêutico amplo e completo, com começo, meio e fim, que respeita e acolhe as características individuais do paciente e leva em consideração a sua história clínica, sua história de vida, seus recursos internos, sua rede de apoio, seu ambiente familiar, social e de trabalho.”

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